Para aquele eterno amor

Eu acho que você me achou uma enxerida quando recebeu a notícia de que eu viria, afinal de contas, você sempre quis parecer mais jovem, e ser avô lhe roubaria alguns anos e talvez alguns fios de cabelo que certamente lhe fariam muita falta.

E então eu cheguei e você não resistiu quando viu aqueles olhos puxados, aquelas bochechas gordas e foi naquele momento que seus cabelos começaram a cair e você decidiu que preferia ser avô do que ter cabelos.

Me colocou manias, manhas e mimos. Me deixou teimosa, geniosa, decidida, passou a vida fazendo tudo sempre do meu jeito e me ensinou que o mundo todo era meu, porque era isso que estava no seu manual de avô.

Não me importa quantos dos meus aniversários você lembrou, não interessa quantos presentes me deu, me importa que você sempre batia na minha porta para falar qualquer bobagem, que cozinhava pra mim e que tinha o sotaque mais engraçado que um avô pode ter.

Me importa, que o barulho dos seus chinelos andando pelo quintal de casa fazem tanta falta, que meu coração dói.

Você me deixou ser criança e você me deixou ser eu. Você me deu o mundo inteiro para que eu fizesse dele só meu e me ensinou que tudo aquilo que dividimos, transborda, sobra, e que isso é a melhor coisa que podemos fazer por nós mesmos.

Me deu todo tempo do mundo para, sentada debaixo da sua mesa, no piso frio alaranjado, eu aprendesse a amarrar os cadarços sem desistir, porque mais tarde, a vida se mostraria cheia de desafios e eu não poderia desistir por medo, dúvida ou preguiça.

Me deixava escalar sua estante velha, só para virar a ampulheta de areia verde, sem saber que a cada virada, era o tempo que corria para o outro lado.

Eu estalava seus dedos quando você pedia. Eu coçava as suas costas quando as coceiras mudavam de lugar e depois, me sentia livre para ter as minhas próprias coceiras nas costas, e elas mudavam de lugar igualzinhas as suas, porque é bom demais alguém coçando as costas da gente.

Ontem você me ouviu. Eu cheguei em casa, tomei um banho e fui até a cozinha tomar um copo d’água. Olhei para o vitrôzinho da cozinha, que você sempre batia duas ou três vezes para chamar a gente durante a noite, e disse bem baixinho: “Ê seu Joaquim, eu tô com saudade de você…”.

E você, sempre danado, me ouviu e veio me visitar. Sempre com pressa, apareceu no meu sonho e quando eu fui te abraçar, você foi embora. Provavelmente tinha um compromisso urgente, inadiável, importantíssimo…

Se eu pudesse ter meu próprio herói, ele teria o seu nome.

Quando eu penso em Batman, Robin, Homem Aranha, Capitão América, eu percebo que nenhum deles chega aos seus pés.

O Super-avô, que me ensinou a colocar açúcar na coca-cola, comer Prestígio antes do almoço e acreditar nos meus sonhos. Um Super-homem de verdade. Que não é infalível, mas que é super-herói.

Talvez eu tenha crescido demais e tenha esquecido de te abraçar e te beijar mais vezes como eu gostaria, porque eu virei mulher e pensava que ser gente grande exigia responsabilidades demais e tempo de menos para os abraços, os beijos e os “eu te amo” despretensiosos.

Se eu pudesse, voltaria no tempo só para te abraçar mais, e para correr mais vezes até o seu abraço como fiz das últimas vezes. Eu voltaria no tempo só pra te segurar outra vez pelo braço e te levar bem devagarzinho até o seu sofá, estalar seus dedos, coçar suas costas, te dar um beijo na careca e dizer o quanto eu te amo.

Mesmo mulher, mesmo me achando madura demais para abraçar o mundo, eu nunca deixei um segundo sequer de te amar como criança. Como a sua criança. Como a sua neta.